Campeão Carioca 1963

O Campeonato Carioca de 1963, em sua 58ª edição, teve uma estrutura de pontos corridos, onde 13 equipes disputaram o título em jogos de turno e returno. Cada time enfrentou os demais duas vezes, e o campeão foi decidido pelo maior número de pontos acumulados ao longo da temporada. O Flamengo, liderado pelo técnico Flávio Costa, teve uma campanha notável, e com um futebol sólido e eficiente, conseguiu encerrar o jejum de sete anos sem títulos estaduais, conquistando o campeonato em uma disputa acirrada contra rivais tradicionais como o Botafogo e o Fluminense.




Time do Flamengo 1963: Luiz Luz (massagista), Murilo, Marcial, Ananias, Luís Carlos Freitas, Carlinhos e Paulo Henrique; Espanhol, Nelsinho, Aírton “Beleza”, Geraldo José e Osvaldo “Ponte Aérea”
Time do Flamengo 1963: Luiz Luz (massagista), Murilo, Marcial, Ananias, Luís Carlos Freitas, Carlinhos e Paulo Henrique; Espanhol, Nelsinho, Aírton “Beleza”, Geraldo José e Osvaldo “Ponte Aérea”

Números da campanha

Jogos: 24
Vitórias: 17
Empates: 05
Derrotas: 02
Gols Pró: 46
Gols Contra: 17

'Fla-Flu foi jogo marcado pela emoção" diz a revista sobre a conquista do Flamengo Campeão Carioca de 1963
‘Fla-Flu foi jogo marcado pela emoção” diz a revista sobre a conquista do Flamengo Campeão Carioca de 1963

Artilheiros Rubro-Negros

Airton e Osvaldo II foram os destaques da campanha com seus gols decisivos, contribuindo com uma parte significativa dos pontos acumulados pelo Flamengo. Airton, com sua técnica e visão de jogo, e Osvaldo II, com sua presença de área, formaram uma dupla eficaz que consolidou o ataque rubro-negro. Esses artilheiros não só ajudaram a equipe a somar pontos, mas também marcaram momentos importantes que levaram o Flamengo ao topo da tabela.

– Airton – 15 gols
– Osvaldo II – 6 gols
– Nélson – 5 gols
– Dida – 4 gols
– Nelsinho – 4 gols
– Espanhol – 4 gols
– Gérson – 3 gols
– Geraldo José – 2 gols
– Carlinhos – 1 gol
– Paulo Alves – 1 gol
– Osvaldo Ponte Aérea – 1 gol

Aírton “Beleza” foi o artilheiro do Flamengo na competição com 15 gols marcados
Aírton “Beleza” foi o artilheiro do Flamengo na competição com 15 gols marcados



Campanha

A campanha do Flamengo foi marcada por jogos emocionantes e vitórias importantes. Em momentos decisivos, o time soube mostrar sua força. Algumas partidas destacadas incluem:

Flamengo 2×1 São Cristóvão – Em 30 de novembro, o Flamengo venceu com gols de Espanhol e Airton.

Flamengo 4×3 Vasco – Em um dos clássicos mais intensos, o Flamengo superou o Vasco com gols de Airton(3) e Oswaldo II, em um espetáculo que atraiu a torcida.

Flamengo 2×1 Olaria – No penúltimo jogo, o Flamengo conseguiu uma vitória apertada que manteve viva a disputa pelo título.

Esses resultados culminaram em uma temporada de sucesso, permitindo que o Flamengo alcançasse a liderança e se posicionasse como favorito antes do confronto final contra o Fluminense.

Troféu Flamengo Campeão Carioca 1963
Troféu Flamengo Campeão Carioca 1963

Campanha completa

1º turno

Flamengo 2 x 0 Canto do Rio
30/06 – Estádio: Caio Martins – Niterói – RJ
Gols: Gérson(2).
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Vanderlei, Jordan, Carlinhos, Gérson, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 2 x 1 Portuguesa
13/07 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Gérson e Dida.
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Jordan, Carlinhos, Gérson, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 3 x 1 Botafogo
21/07 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Airton(2), e Paulo Alves.
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Jordan, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Paulo Alves e Oswaldo.

Destaque do Jornal Última Hora para grande vitória do Flamengo por 3x1 sobre o Botafogo - 22/07/63
Destaque do Jornal Última Hora para grande vitória do Flamengo por 3×1 sobre o Botafogo – 22/07/63

Flamengo 5 x 0 Campo Grande
27/07 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Airton(3) e Nelsinho(2).
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Jordan, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 5 x 0 Madureira
04/08 – Estádio: Conselheiro Galvão – Rio de Janeiro
Gols: Dida(2), Airton(2) e Espanhol.
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Vanderlei, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton Dida e Paulo Alves.

Flamengo 1 x 0 Bonsucesso
11/08 – Estádio: São Januário – Rio de Janeiro
Gol: Airton.
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Vanderlei, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol Airton, Dida e Oswaldo.




Flamengo 1 x 3 América
18/08 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gol: Nelsinho.
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Vanderlei, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 0 x 0 Vasco da Gama
24/08 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Time: Mauro, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Jordan, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Gerson e Oswaldo.

Flamengo 1 x 2 Bangu
01/09 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gol: Dida.
Time: Mauro(Marcial), Murilo, Luís Carlos, Ananias, Jordan, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 2 x 1 São Cristóvão
11/09 – Estádio: General Severiano – Rio de Janeiro
Gols: Oswaldo e Nelsinho.
Time: Marcial, Murilo, Ananias, Joubert, Paulo Henrique, Nelson, Nelsinho, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo.

Flamengo 2 x 0 Olaria
15/09 – Estádio: General Severiano – Rio de Janeiro
Gols: Nelson e Airton.
Time: Marcial, Murilo, Ananias, Joubert, Paulo Henrique, Nelson, Nelsinho, Espanhol, Airton, Dida e Paulo Alves.

Flamengo 0 x 0 Fluminense
22/09 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 67.837
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Nelson, Nelsinho, Espanhol, Airton, Foguete e Paulo Alves.

2º Turno

Flamengo 3 x 2 Canto do Rio
29/09 – Estádio: São Januário – Rio de Janeiro
Gols: Nelson(2) e Geraldo.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Nelson, Nelsinho, Espanhol, Geraldo, Dida e Oswaldo II.

Flamengo 1 x 0 Portuguesa
09/10 – Estadio: São Januario – Rio de Janeiro
Gol: Nelson.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Nelson, Nelsinho, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 0 x 0 Botafogo
13/10 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo II.

Flamengo 4 x 1 Campo Grande
19/10 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Airton(2), Oswaldo e Nelson.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo II.

Flamengo 0 x 0 Madureira
2º Turno
27/10 – Estádio: São Januário – Rio de Janeiro
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol, Airton, Dida e Oswaldo II.




Flamengo 1 x 0 Bonsucesso
03/11 – Estadio: Teixeira de Castro – Rio de Janeiro
Gol: Geraldo.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 2 x 0 América
09/11 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Oswaldo II(2).
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 4 x 3 Vasco da Gama
15/11 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Airton(3) e Oswaldo II.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelson, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 3 x 1 Bangu
24/11 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Oswaldo II(2) e Espanhol.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 2 x 1 São Cristóvão
30/11 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Gols: Espanhol e Airton.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 2 x 1 Olaria
08/12 – Estádio: Rua Bariri – Rio de Janeiro
Gols: Carlinhos e Nelsinho.
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.

Flamengo 0 x 0 Fluminense
15/12 – Estádio: Maracanã – Rio de Janeiro
Público: 177.656 pagantes (194.603 presentes)
Time: Marcial, Murilo, Luís Carlos, Ananias, Paulo Henrique, Carlinhos, Nelsinho, Espanhol, Airton, Geraldo e Oswaldo II.
(C.R. Flamengo Campeão Carioca)

Jogadores do Flamengo correm pelo gramado do Maracanã com a faixa de campeão carioca de 1963 no peito
Jogadores do Flamengo correm pelo gramado do Maracanã com a faixa de campeão carioca de 1963 no peito

Jogo Final: Flamengo 0x0 Fluminense

No dia 15 de dezembro de 1963, o Maracanã se transformou em uma arena fervorosa para um dos confrontos mais esperados do Campeonato Carioca. Flamengo e Fluminense chegaram ao Fla-Flu final em uma situação acirrada: o Flamengo liderava com 38 pontos, enquanto o Fluminense vinha logo atrás com 37. Bastava ao Rubro-Negro um empate para garantir o título, e a expectativa era intensa entre as torcidas. Naquele domingo, o estádio recebeu uma multidão de torcedores, alcançando oficialmente 177.656 pagantes (194.603 presentes). Essa marca histórica, ainda hoje, representa o maior público já registrado em uma partida entre clubes no futebol brasileiro.




A partida teve um ritmo truncado desde o início. Consciente de que o empate seria o suficiente, o Flamengo apostou em uma postura cautelosa, controlando a posse de bola e evitando riscos desnecessários. A presença de Nelsinho, o volante titular, mesmo lesionado, foi uma aposta ousada do técnico Flávio Costa. Em campo, ele demonstrou dedicação e superação, mas precisou de todo o suporte de seu companheiro Carlinhos, conhecido como “Violino,” que se desdobrou para segurar o meio-campo e neutralizar as investidas tricolores. Essa dupla foi crucial para manter o equilíbrio do time e resistir à pressão do adversário.

O Fluminense, por outro lado, não poupou esforços para tentar furar a defesa rubro-negra. Os tricolores buscaram constantemente o ataque, mas esbarraram na atuação inspirada do goleiro Marcial, que se destacou com defesas difíceis ao longo dos 90 minutos. Em certo momento, a torcida tricolor chegou a soltar um grito quase de gol, mas o atacante Escurinho desperdiçou uma chance clara. Este momento trouxe um suspiro de alívio para a Nação Rubro-Negra, que se mantinha em suspense a cada ataque do Fluminense.

Nação Rubro-Negra em peso no maior público da história do futebol entre clubes, 194.603 presentes, no dia 15 de dezembro de 1963
Nação Rubro-Negra em peso no maior público da história do futebol entre clubes, 194.603 presentes, no dia 15 de dezembro de 1963

Esse empate sem gols representou muito mais do que um resultado. Foi a consagração de uma equipe que superou desafios internos e externos ao longo do campeonato. O Flamengo teve que lidar com a ausência de Gérson, sua maior revelação, que havia saído para o Botafogo devido a desavenças com a diretoria. Além disso, o ídolo Dida estava em fase final de carreira, tornando essa conquista ainda mais significativa. A resiliência do time e a força de sua torcida fizeram dessa vitória um marco na história do clube.

Ao final do jogo, a explosão de alegria tomou conta das arquibancadas rubro-negras. O empate sem gols, que à primeira vista poderia parecer um resultado modesto, garantiu o título carioca ao Flamengo e encerrou um jejum de sete anos sem conquistas estaduais. A festa no Maracanã e pelas ruas do Rio de Janeiro foi emblemática, simbolizando a paixão e a devoção dos torcedores que lotaram o estádio em um dia que permanece eterno na memória flamenguista.

O goleiro Marcial faz a defesa no último lance da partida. O Flamengo conquista o Campeonato Carioca de 1963!
O goleiro Marcial faz a defesa no último lance da partida. O Flamengo conquista o Campeonato Carioca de 1963!



Ficha Técnica

FLAMENGO 0x0 FLUMINENSE
LOCAL: Maracanã, Rio de Janeiro (RJ)
PÚBLICO: 177.656 pagantes (194.603 presentes)
RENDA: CR$ 57.993.500,00
ÁRBITRO: Claudio Magalhães

FLAMENGO: Marcial, Murilo, Luis Carlos, Ananias e Paulo Henrique; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Aírton, Geraldo e Osvaldo Técnico: Flávio Costa.

FLUMINENSE: Castilho, Carlos Alberto Torres, Procópio, Dari e Altair; Oldair e Joaquinzinho; Edinho, Manoel, Evaldo e Escurinho. Técnico: Fleitas Solich.

O lateral Murilo, com a faixa solta, o ponta Espanhol, o zagueiro Luís Carlos e o zagueiro Ananias, na comemoração do 5º título do Flamengo no Maracanã, em 15 de dezembro de 1963
O lateral Murilo, com a faixa solta, o ponta Espanhol, o zagueiro Luís Carlos e o zagueiro Ananias, na comemoração do 5º título do Flamengo no Maracanã, em 15 de dezembro de 1963

O maior público da história do futebol entre clubes

O Fla-Flu final de 1963 entrou para a história não apenas pelo título, mas pelo público recorde. Oficialmente, 194.603 pessoas estiveram presentes no Maracanã, sendo 177.020 pagantes. Acredita-se que o número real pode ter superado os 200 mil, considerando as multidões que adentraram o estádio sem ingresso e os muitos torcedores que assistiram ao jogo em pé ou dividindo assentos. Este foi o maior público registrado em um jogo entre clubes na história do futebol.

A atmosfera no Maracanã era impressionante, com a presença da Nação Rubro-Negra em massa, vibrando e apoiando o time em cada lance. Além de testemunhar a vitória do Flamengo, muitos dos presentes recordam-se da superlotação, com áreas do estádio lotadas além de sua capacidade. Entre os torcedores estava o jovem Zico, que anos depois viria a se tornar um dos maiores ídolos da história do clube. Ele, como muitos, relembra a grandiosidade daquele dia, marcado pela paixão e pelo apoio incessante da torcida rubro-negra.

Nação Rubro-Negra em peso no maior público da história do futebol entre clubes, 194.603 presentes, no dia 15 de dezembro de 1963
Nação Rubro-Negra em peso no maior público da história do futebol entre clubes, 194.603 presentes, no dia 15 de dezembro de 1963

Crônica de Nelson Rodrigues sobre a final

Continuo Tricolor

Amigos, ao terminar o grande Fla-Flu, o profeta tratou de catar os trapos e saiu do Maracanã, mas de cabeça erguida. Era um vencido? Jamais. Vencido, como, se temos de admitir esta verdade límpida e clara – o Fluminense jogou mais. Não cabe, contra a evidência da nossa superioridade, nenhum argumento, sofisma ou dúvida. Alguém dirá que o profeta não previa o empate.

Exato. Mas vamos raciocinar. Houve lances, no Fla-Flu, que escapariam à vidência até de um Maomé, até de um Moisés de Cecil B. de Mille. Lembro-me de um momento, em que Marcial estava batido, irremediavelmente. O arco rubro-negro abria seus sete metros e quebrados. E que fez Escurinho? Enfiou a bola na caçapa? Consumou o “goal” de cambaxirra?

Simplesmente, Escurinho levantou para Marcial. Deu a bola na bandeja como se fosse a cabeça de São João Batista. E eu diria que nem Joana D’Arc, com suas visões lindas, ou Maomé pendurado no seu camelo, ou o Moisés de Cecil B. de Mille, do alto de suas alpercatas – podia imaginar tamanha ingenuidade. Escurinho teria de chutar rente à grama, ou alto, se quisesse, mas teria de chutar e nunca suspender a bola.

E tem mais. Os profetas de ambos os sexos jamais poderiam contar com a trave. No segundo tempo, Escurinho mandou uma bomba. Nenhum “goal” foi tão merecido. Pois bem: – vem a trave e salva. Além do mais que Maomé, ou que Moisés podia calcular que Solich ia fazer jogo para empate? Dirá o próprio que não foi esta a sua intenção. Mas o fato incontestável é que ele armou o time para o hediondo 0 x 0.




Jornal O Globo de 16/12/1963 - Flamengo Campeão Carioca!
Jornal O Globo de 16/12/1963 – Flamengo Campeão Carioca!

É obvio que, desde o primeiro minuto, o Fluminense teria de se atirar todo para a frente. Era preciso forçar a decisão, o”goal”, a vitória, já que o empate seria a catástrofe. O tricolor jogou bem e, no entanto, não deu, nunca, a sensação de fome e sede de “goal”. Faltavam uns 15 minutos, e os nossos jogadores ainda tramavam, ainda faziam tico-tico, ainda perdiam tempo com passes curtos, para os lados e para trás. Sim, o Fluminense jogou bem e não cabe preciosismo num último Fla-Flu.

Já contra o Bangu, aconteceu o seguinte: – sempre que Oldair avançava, eis que Solich erguia-se na boca do túnel e fazia um comício. Oldair marcou dois “goals” por desobediência e repito, por indisciplina tática. Ontem, ele estava cá atrás, defendendo um empate que seria a vitória do Flamengo. Vejam que tristeza horrenda: – jogamos bem e errado.

Dizia eu que o profeta estava certo no mérito da questão. O tricolor é o melhor, foi melhor, teve mais time. Mas há, claro, um campeão oficial, que é o Flamengo. E aqui, abro um capítulo para falar da alegria rubro-negra, santa alegria que anda solta pela cidade. Nada é mais bonito do que a euforia da massa flamenga. À saída do estádio, eu vi um crioulão arrancar a camisa diante do meu carro. Seminu, como um São Sebastião, ele dava arrancos medonhos. Do seu lábio, pendia a baba elástica e bovina do campeão.

Mesmo que eu fosse um Drácula, teria de ser tocado por essa alegria que ensopa, que encharca, que inunda a cidade. Eu não sei se o time do Flamengo, como time, mereceu o título. Mas a imensa, a patética, a abnegada torcida rubro-negra merece muito mais. Cabe então a pergunta: – quem será o personagem da semana de um abnegado Fla-Flu tão dramático para nós? Um nome me parece obrigatório: – Marcial. E nessa escolha, está dito tudo. Quando o goleiro é a figura mais importante de um time, sabemos que o adversário jogou melhor. Castilho teve muito menos trabalho. Claro que eu não incluo, entre os méritos de Marcial, o “goal” que Escurinho não fez. Tão pouco falo na bomba que o mesmo Escurinho enfiou na trave. Assim mesmo Marcial andou fazendo intervenções decisivas, catando bolas quase perdidas.

Amigos, eu sei que os fatos não confirmaram a profecia. Ao que o profeta só pode responder: – “Pior para os fatos!” É só.

Flamengo Jornal dos Sports de 16/12/1963
Flamengo é Campeão! Jornal dos Sports de 16/12/1963