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Flamengo tem elenco e dinheiro, mas perde para a organização do Palmeiras, avalia Fabiano de Abreu

Eliminação na Libertadores expõe problemas do Flamengo diante da continuidade do Palmeiras

Bruno Henrique em campo pelo Flamengo
Bruno Henrique em campo pelo Flamengo

Flamengo e Palmeiras consolidaram-se como dois dos principais protagonistas do futebol sul-americano nos últimos anos. Para Fabiano de Abreu, porém, a eliminação rubro-negra na Libertadores evidencia problemas que vão além dos pênaltis desperdiçados, envolvendo escolhas administrativas, estabilidade no comando técnico e a comparação com o principal rival brasileiro do período.



Sou flamenguista e reconheço a grandeza do Flamengo. O clube tem elenco, torcida, receitas, estrutura e capacidade para competir por qualquer título na América do Sul. Por isso mesmo, a eliminação diante do Estudiantes causa ainda mais incômodo. Não foi apenas uma semifinal perdida: mais uma vez, o Palmeiras demonstra uma consistência na gestão que o Flamengo ainda não conseguiu estabelecer como característica permanente.

A importância de reconhecer os próprios erros

É necessário ter conscienciosidade para admitir essa realidade.



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Na psicologia da personalidade, a conscienciosidade está relacionada à organização, à disciplina, à responsabilidade, ao planejamento e à capacidade de identificar erros para mudar comportamentos. No futebol, o princípio também se aplica: uma gestão consciente não pode se limitar a enxergar aquilo em que deseja acreditar. É preciso analisar os resultados, comparar escolhas e corrigir o que não está dando certo.

Nesse aspecto, a comparação com o Palmeiras tornou-se inevitável.



Abel Ferreira comanda a equipe paulista desde 2020. Durante esse período, conquistou 11 títulos e se transformou no treinador mais vencedor da história do clube. Seu currículo inclui duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, uma Recopa, uma Supercopa e quatro Campeonatos Paulistas.

Mesmo sem levantar taças em 2025, quando perdeu o Brasileirão e a Libertadores justamente para o Flamengo, o Palmeiras não desfez o trabalho desenvolvido. Em 2026, voltou a conquistar o Campeonato Paulista e agora está novamente na decisão da Libertadores.

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Continuidade que se transforma em conhecimento

Isso representa um repertório construído ao longo do tempo.

No funcionamento cerebral, a repetição acompanhada de aprendizado permite desenvolver modelos de resposta mais eficientes. No futebol, um processo semelhante ocorre dentro das organizações. Uma comissão técnica que permanece por vários anos acumula conhecimento sobre os atletas, os adversários, as competições, as crises, os erros cometidos e as soluções que deram resultado.

Isso não quer dizer que um treinador deva permanecer no cargo para sempre. O ponto é que a continuidade, quando existe competência, contribui para formar conhecimento institucional.

Foi esse patrimônio que o Palmeiras desenvolveu com Abel Ferreira.

O Flamengo, por outro lado, interrompeu o trabalho justamente quando começava a construir algo parecido com Filipe Luís.

Os resultados conquistados por Filipe Luís antes da demissão

Filipe Luís assumiu a equipe profissional em setembro de 2024. Em pouco mais de um ano, conquistou a Copa do Brasil de 2024, a Supercopa, o Campeonato Carioca, a Libertadores e o Campeonato Brasileiro de 2025. Foram cinco títulos em 16 meses de trabalho.

Além disso, tornou-se o primeiro profissional da história do Flamengo a conquistar a Libertadores tanto como jogador quanto como treinador.

A mudança de comando em 2026

A temporada de 2026 começou de maneira negativa, com derrotas na Supercopa e na Recopa. Diante desse cenário, a administração optou pela demissão de Filipe Luís.

A maneira como a decisão aconteceu chama a atenção. O treinador foi dispensado poucas horas depois de o Flamengo vencer o Madureira por 8 a 0 e garantir presença na final do Campeonato Carioca. Apenas dois meses antes, o próprio clube havia renovado seu contrato até o fim de 2027.

Leonardo Jardim foi escolhido para assumir o lugar de Filipe Luís.

Antes de sua chegada ao Flamengo, eu não acompanhava de perto o trabalho de Jardim. O português possui experiência no futebol europeu, conquistou o Campeonato Francês com o Monaco e passou por diferentes clubes. Portanto, seria injusto desconsiderar sua trajetória.

Entretanto, ter currículo é uma coisa; apresentar resultados dentro de um contexto específico, como o do Flamengo, é outra.

E o desempenho diante do Estudiantes ficou muito aquém do necessário.

Superioridade numérica sem soluções ofensivas

O Estudiantes atuou com dez jogadores durante praticamente todo o segundo tempo. O Flamengo teve quase 75% de posse de bola e, conforme declarou o próprio Leonardo Jardim, criou somente duas oportunidades de gol.

A equipe manteve a circulação da bola, encontrou um adversário recuado e não conseguiu desenvolver alternativas suficientes para conquistar a vaga na final.

A falta de adaptação durante a partida

É nesse ponto que a questão cognitiva volta a ter importância.

Flexibilidade cognitiva é a capacidade de identificar mudanças em uma situação e adaptar a estratégia com rapidez. Quando o Estudiantes perdeu um jogador aos quatro minutos do segundo tempo, o cenário da partida se modificou. O Flamengo precisava ajustar a velocidade, a ocupação dos espaços, a presença na área e a forma de atacar a defesa adversária.

Essa adaptação demorou a acontecer.

Não afirmo que Leonardo Jardim tenha sido responsável pelos três pênaltis desperdiçados. Essa seria uma análise simplista. O que destaco é que o Flamengo teve mais de 40 minutos de vantagem numérica para tentar resolver a classificação antes das cobranças e não conseguiu.

Palmeiras e Estudiantes disputarão a final

Agora, o Palmeiras terá justamente o Estudiantes pela frente na decisão da Libertadores.

Não considero correto afirmar que o título já esteja definido. Os argentinos eliminaram o atual campeão da América e merecem respeito. Ainda assim, levando em conta a qualidade individual, a profundidade do elenco, a experiência recente e a estrutura, considero o Palmeiras superior ao adversário argentino.

A equipe paulista tem uma grande oportunidade de conquistar mais uma Libertadores.

Na prática, nós mesmos abrimos esse caminho.

O Flamengo poderia estar na decisão. Tinha elenco para chegar lá, jogava diante de sua torcida e enfrentou um adversário com um jogador a menos durante boa parte do segundo tempo. Caso o Palmeiras conquiste o título, será inevitável olhar para trás e reconhecer a dimensão da oportunidade desperdiçada.

O problema do Flamengo vai além da semifinal

A questão mais importante, contudo, não se encerra com essa eliminação.

O Flamengo dispõe de capacidade financeira e esportiva para construir uma hegemonia. Entretanto, potencial, por si só, não conquista campeonatos. A gestão é determinante.

Nos últimos anos, o Palmeiras demonstrou maior capacidade de preservar processos, superar temporadas sem títulos e manter uma direção esportiva relativamente coerente. O Flamengo, por sua vez, continua tomando decisões abruptas justamente quando deveria priorizar a continuidade.

A escolha de demitir Filipe Luís depois de suas conquistas e contratar Leonardo Jardim foi uma decisão administrativa. Após a eliminação, essa escolha precisa passar novamente por uma avaliação.

Isso não significa considerar Filipe Luís um treinador infalível.

Ele não era.

Mas havia conquistado cinco títulos em 16 meses, incluindo o Campeonato Brasileiro e a Libertadores, conhecia profundamente o clube e ainda estava desenvolvendo sua carreira como treinador. A demissão de um profissional com esse histórico, motivada por dois meses ruins, exige que seu substituto apresente algo claramente superior.

Até agora, não vi isso acontecer.

O que o Flamengo precisa aprender com o rival

O Palmeiras, principal concorrente nacional do Flamengo nessa fase recente, compreendeu um princípio que o Rubro-Negro ainda precisa assimilar: projetos grandes não podem ser reconstruídos toda vez que surge uma dificuldade.

Reconhecer essa realidade não diminui o Flamengo.

A conscienciosidade também significa admitir quando o adversário está fazendo algo melhor.

Primeiro, reconhecemos.

Depois, damos a volta por cima.

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