O departamento jurídico do Flamengo ganhou mais um capítulo movimentado em 2025. Desta vez, não envolve o futebol, mas sim o basquete: Gustavo de Conti, comandante rubro-negro entre 2018 e fevereiro deste ano, ingressou com processo na 4ª Vara Cível do Rio de Janeiro para receber aquilo que considera devido após sua dispensa repentina.
Na petição, revelada pelo colunista Ancelmo Gois, o treinador afirma que foi desligado sem aviso prévio nem justificativa formal, situação que — segundo seus advogados — caracteriza rescisão unilateral sem justa causa. O pedido financeiro gira em torno de R$ 723 mil: valor que corresponde à multa fixada no contrato de direito de imagem firmado com o clube.
O estopim da disputa, explicam os defensores de Gustavinho, está em uma cláusula que previa punição caso o rompimento partisse do técnico, mas não estipulava sanção equivalente para o caso de iniciativa do Flamengo. Para eles, trata-se de dispositivo “excessivamente oneroso a apenas uma parte”, ferindo o princípio da boa-fé e o equilíbrio exigido pela Lei Geral do Esporte, pelo Código Civil e por entendimentos consolidados no Superior Tribunal de Justiça.
A defesa acusa o rubro-negro de impor condições “abusivas e desequilibradas”, visto que o próprio clube se beneficiaria de um “direito de desistir” sem ônus, enquanto o profissional arcaria com pesada multa se tomasse idêntica atitude. Dessa maneira, pedem que a Justiça reconheça o direito ao recebimento integral da penalidade prevista — corrigida e acrescida de 30 % se o aviso prévio de 30 dias não tiver sido observado.
Trajetória vitoriosa seguida de pressão interna
Contratado em 2018 para substituir José Neto, Gustavo de Conti rapidamente se tornou símbolo do basquete rubro-negro. Em sete temporadas, empilhou troféus: seis Campeonatos Cariocas, quatro Copas Super 8, dois títulos do NBB, além da Champions League Américas e da histórica Copa Intercontinental de 2022, que recolocou o Flamengo no topo do mundo.
O brilho, contudo, começou a diminuir em 2024 e 2025, quando a equipe passou a oscilar e perdeu força nas fases decisivas do NBB e da BCLA. Sob forte cobrança da arquibancada — que pedia renovação de ideias —, a diretoria optou por encerrar o ciclo em fevereiro de 2025. Para o lugar de Gustavinho, desembarcou o argentino Sergio Hernández, apontado como o nome para recolocar o “Orgulho da Nação” na rota de títulos.
Silêncio da diretoria e próximos passos
Até o momento, o Flamengo não emitiu nota oficial sobre a ação cível. Dirigentes ouvidos reservadamente sustentam que a demissão se deu dentro dos parâmetros pactuados e que vão apresentar defesa demonstrando a legalidade do acordo. O processo segue em tramitação, e uma audiência de conciliação deve ser marcada nas próximas semanas.
Caso a Justiça acolha integralmente o pedido do treinador, o clube carioca terá de desembolsar os R$ 723 mil (ou mais, se houver acréscimo pelo suposto descumprimento do aviso de 30 dias) — valor que não interfere no “fair play” da modalidade, mas pressiona o orçamento de outras áreas.
Enquanto isso, Hernández trabalha para preparar a equipe para o retorno do NBB e da Champions League Américas, enquanto o bastidor jurídico prepara defesas e se organiza para mais uma batalha fora das quadras.













