
Quando o rubro-negro começou a enfrentar clubes do Velho Continente
Durante o século XX, os confrontos entre clubes sul-americanos e europeus eram bem mais comuns do que se tornariam nas décadas seguintes. A diferença econômica entre as realidades dos dois continentes ainda não era abissal, como passou a ser a partir dos anos 2000, após uma série de transformações no futebol europeu. Um marco fundamental desse processo foi a implementação da chamada Lei Bosman, que revolucionou as regras de transferência de jogadores e escancarou as portas para um fluxo intenso de atletas entre os países da União Europeia.
A Lei Bosman eliminou as restrições para que jogadores europeus atuassem em outros países do bloco, baseando-se no princípio da livre circulação de trabalhadores. Antes disso, clubes europeus podiam ter no máximo três estrangeiros. Com a nova legislação, qualquer jogador com passaporte europeu passou a ser tratado como local. O comunicado oficial da União Europeia, em 1995, foi claro: “A União Europeia exige que as regulamentações sobre transferências e limitações de jogadores estrangeiros devem ser alteradas imediatamente.”
O impacto foi gigantesco, tanto do ponto de vista esportivo quanto econômico. A valorização dos atletas e a explosão de transações resultaram em folhas salariais cada vez mais altas e na concentração de capital nos clubes mais ricos da Europa. E essa mudança acabou afetando profundamente o futebol sul-americano, que passou a ver seus jogadores indo cada vez mais cedo para o Velho Continente. O futebol europeu tornou-se hegemônico dentro e fora de campo.
Naquela época, o principal campeonato nacional era o italiano, onde Juventus, Milan e Internazionale figuravam como as três grandes potências. No início da década de 1990, o Milan tinha três estrangeiros: Rijkaard, Gullitt e Van Basten. A Inter contava com Brehme, Lothar Matthäus e Klinsmann. A Juventus tinha Deschamps e Savicevic. Mas em poucos anos, isso mudaria. Em 1997, Juventus, Milan e Inter já contavam com cinco ou seis estrangeiros cada. Zidane, Boban, Zamorano, Djorkaeff, Desailly, Davids, entre outros, simbolizavam uma nova era.
Todo esse contexto é importante para se compreender o distanciamento que se criou entre o futebol europeu e o sul-americano a partir dos anos 2000. No caso do Flamengo, o impacto é visível em números: até o ano 2000, o clube havia realizado 244 jogos contra adversários europeus. De 2001 até 2018, esse número caiu drasticamente — apenas uma partida nesse intervalo.
Os primeiros embates internacionais do Flamengo
Os primeiros confrontos do Flamengo contra clubes europeus ocorreram no final dos anos 1940, todos no Rio de Janeiro, antes mesmo da inauguração do Maracanã. Foram cinco jogos entre 1948 e 1949 — três em São Januário e dois nas Laranjeiras. E foi justamente em 6 de junho de 1948 que o clube da Gávea estreou em confrontos contra times do Velho Continente.
O adversário foi o Southampton, da Inglaterra, que fazia excursão pela América do Sul. O Flamengo, ainda um pouco tímido diante dos inventores do futebol, foi derrotado por 3 a 1. Mesmo assim, o jogo foi um evento de grande porte: mais de 40 mil pessoas (número estimado pela Polícia Militar) compareceram ao Estádio de São Januário, que na época comportava oficialmente 35 mil. Foi o grande acontecimento esportivo do ano no Rio de Janeiro.
No ano seguinte, 1949, o calendário de jogos contra europeus foi ainda mais agitado. O rubro-negro enfrentou três clubes: o Arsenal, da Inglaterra, o Rapid Viena, da Áustria, e o Malmoe, da Suécia.
A partida contra o Arsenal foi histórica. Realizada novamente em São Januário, no dia 29 de maio de 1949, reuniu um público gigantesco, que viu o Flamengo vencer por 3 a 1, com dois gols de Jair da Rosa Pinto e um de Durval. A vitória teve enorme repercussão no país.


Três semanas depois, o clube voltou ao estádio do Vasco para enfrentar o Rapid Viena, vencendo por 2 a 1, com gols de Durval e Gringo.
Em dezembro, o Flamengo ainda recebeu o Malmoe em duas partidas disputadas no Estádio das Laranjeiras. O primeiro jogo terminou em empate por 4 a 4, e no segundo, o time rubro-negro venceu com autoridade por 3 a 0.
Em cinco partidas disputadas nesses primeiros encontros com times da Europa, o Flamengo venceu três vezes, empatou uma e perdeu apenas uma — mostrando aos europeus a força do futebol rubro-negro já naquela época.
Jogo histórico:
29/05/1949 – Flamengo 3 x 1 Arsenal (Inglaterra)
Este post faz parte de uma série especial sobre o Flamengo contra clubes europeus.
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