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Fred Soares destaca: “O que o futebol brasileiro precisa resgatar – sem copiar nem romantizar”

Especialista reflete sobre como o Brasil pode recuperar sua essência futebolística sem perder a identidade.

Filipe Luís e jogadores em treino do Flamengo no Ninho do Urubu
Filipe Luís e jogadores em treino do Flamengo no Ninho do Urubu

Neste 1º de janeiro de 2025, o início de um novo ano traz a oportunidade de refletirmos sobre o futuro, aprendendo com as lições do passado. Essa perspectiva foi abordada por José Boto, o novo diretor técnico do Flamengo, durante sua apresentação. Ele levantou uma questão crucial: será que o Brasil tem cuidado bem de suas categorias de base? E fez um alerta: talvez seja o momento de revisitar a essência que tornou o futebol brasileiro tão único.

Nos últimos tempos, o discurso predominante tem sido sobre modernização na formação de jogadores. A ideia de copiar métodos de sucesso, como os do Ajax, Barcelona ou do futebol alemão, ganhou força. Contudo, José Boto questiona se importar esses modelos realmente é a solução ideal.

A obsessão por imitar outros deixou algo fundamental para trás: a criatividade que surge do improviso nas ruas, a técnica refinada no futsal e a liberdade de brincar com a bola. Embora tenhamos adotado metodologias modernas, perdemos o contato com a cultura que moldou nossa identidade futebolística – e isso pode ter um preço alto.

Recuperando o que foi esquecido

O futebol brasileiro não se tornou uma fábrica de craques por acaso. Foi a vivência nas ruas, nas peladas e nas improvisações que estimulou o surgimento de talentos extraordinários.

Por muito tempo, acreditou-se que os craques brasileiros nasciam quase espontaneamente, formados em brincadeiras descalças na infância e lapidados somente na fase adulta. Mas essa visão ignora um fator crucial: o improviso surge do desejo de reproduzir a magia de ídolos como Pelé, Garrincha, Rivelino e Zico. Essas inspirações transformavam sonhos infantis em habilidades técnicas.

O aprendizado informal, longe de ser aleatório, segue uma lógica cultural. É nas brincadeiras que conceitos como posicionamento, função em campo e leitura de jogo se desenvolvem de forma natural e intuitiva – um verdadeiro método invisível que fez do Brasil o país do futebol.

O exemplo do Palmeiras

Nos últimos anos, a base do Palmeiras destacou-se ao revelar talentos como Endrick, Estêvão e Luiz Guilherme, todos vendidos por valores expressivos para a Europa. Isso não aconteceu por acaso. Além de utilizar metodologias convencionais, o clube implementou um diferencial: a construção de um campo propositalmente esburacado, com gramado ralo e desnivelado, projetado para estimular o improviso e a autonomia.

Na entrada desse campo, uma placa resume a filosofia adotada: “Proibido treinadores. Espaço de liberdade, improviso e autonomia.” Esse ambiente remete à essência do futebol brasileiro e reforça como a criatividade pode florescer quando há liberdade.

Resgatar sem perder o olhar para o futuro

José Boto defende que o Brasil precisa redescobrir sua essência, mas sem abrir mão das contribuições valiosas de outras escolas de futebol. Trata-se de adaptar e reinventar, valorizando aquilo que temos de melhor.

Para o Flamengo, incorporar essa visão pode significar não apenas novos ganhos financeiros, mas também reafirmar sua identidade de revelar craques “em casa”. Afinal, é possível olhar para as boas práticas do futebol europeu sem abandonar a nossa forma de jogar, de criar e de formar jogadores.

O futebol brasileiro precisa voltar a se conectar com suas raízes e resgatar o prazer de brincar. Assim, quem sabe, voltaremos a ser a referência que ensina ao mundo por que somos conhecidos como o país do futebol.

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